{"id":14420,"date":"2017-01-10T15:43:31","date_gmt":"2017-01-10T15:43:31","guid":{"rendered":"http:\/\/sindvalores.com.br\/site\/?p=14420"},"modified":"2017-01-10T15:43:31","modified_gmt":"2017-01-10T15:43:31","slug":"boaventura-brasil-pos-golpe-e-mais-capitalista-colonialista-e-patriarcal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindvalores.com.br\/site\/institucional\/noticias\/boaventura-brasil-pos-golpe-e-mais-capitalista-colonialista-e-patriarcal","title":{"rendered":"Boaventura: Brasil p\u00f3s-golpe \u00e9 \u201cmais capitalista, colonialista e patriarcal\u201d"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA democracia brasileira tinha mais intensidade antes do golpe parlamentar-midi\u00e1tico-judicial do que tem agora. A simples composi\u00e7\u00e3o do governo mostra como a democracia \u00e9 agora mais capitalista, colonialista e patriarcal\u201d, avalia\u00a0Boaventura de Sousa Santos, aposentado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, e professor em\u00e9rito da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin (EUA); o estudioso, que lan\u00e7ou o seu o livro\u00a0<em>A Dif\u00edcil Democracia,\u00a0<\/em>tamb\u00e9m criticou a PEC 55, que limita os gastos p\u00fablicos<em>;\u00a0<\/em>\u201cAnuncia um brutal aumento do fascismo social e o consequente definhamento da democracia\u201d<\/p>\n<p>Pouca gente no planeta observa a geopol\u00edtica mundial com a lucidez de Boaventura de Sousa Santos. Catedr\u00e1tico aposentado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, e professor em\u00e9rito da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, Boaventura \u00e9 tamb\u00e9m profundo conhecedor da realidade do Brasil, onde passou a ser mais conhecido no in\u00edcio deste s\u00e9culo, ao organizar e participar de edi\u00e7\u00f5es do F\u00f3rum Social Mundial, e onde esteve recentemente para lan\u00e7ar seu novo livro,\u00a0<em>A Dif\u00edcil Democracia<\/em>\u00a0(Editora Boitempo).<\/p>\n<p>Ao analisar o complexo cen\u00e1rio pol\u00edtico e econ\u00f4mico global, o professor considera incompat\u00edvel a coexist\u00eancia entre a democracia e as modernas sociedades capitalistas. Para ele, a democracia, limitada ao n\u00edvel do sistema pol\u00edtico, sempre sucumbe, na pr\u00e1tica, aos tr\u00eas modos de domina\u00e7\u00e3o de classes: capitalismo, colonialismo e patriarcado. O resultado, com alguma varia\u00e7\u00e3o de tons aqui e ali, \u00e9 a preval\u00eancia de um fascismo social. Tome-se o caso brasileiro no qual, segundo Boaventura, a democracia tinha mais intensidade antes do \u201cgolpe parlamentar-midi\u00e1tico-judicial\u201d do que tem agora. Agora, a simples composi\u00e7\u00e3o do governo mostra como a democracia est\u00e1 mais capitalista, colonialista e patriarcal. E o que tem o fascismo social a ver com isso?<\/p>\n<p>Sua defini\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es em que o fen\u00f4meno ocorre soar\u00e1 familiar: quando uma fam\u00edlia tem comida para dar aos filhos hoje mas n\u00e3o sabe se a ter\u00e1 amanh\u00e3; quando um trabalhador desempregado se v\u00ea obrigado a aceitar as condi\u00e7\u00f5es ilegais que o patr\u00e3o imp\u00f5e; quando uma mulher \u00e9 violada a caminho de casa ou \u00e9 assassinada em casa pelo companheiro; quando povos ind\u00edgenas s\u00e3o expulsos de suas terras ou assassinados impunemente por capangas a servi\u00e7o de latifundi\u00e1rios; quando jovens negros s\u00e3o v\u00edtimas de racismo e de brutalidade policial nas periferias das cidades.<\/p>\n<p>\u201cEm todos estes casos, as v\u00edtimas s\u00e3o formalmente cidad\u00e3os, mas n\u00e3o t\u00eam realisticamente qualquer possibilidade de invocar eficazmente direitos de cidadania a seu favor\u201d, define o professor. As v\u00edtimas de fascismo social, portanto, n\u00e3o s\u00e3o consideradas plenamente humanas, como ele resume. Boaventura v\u00ea ainda nos planos do atual governo um potencial devastador, de definhamento da democracia e de um aumento brutal do fascismo social. Confira entrevista para a\u00a0<em>Revista do Brasil,<\/em>\u00a0dispon\u00edvel apenas no site.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel funcionar uma democracia plena em um sistema capitalista globalizado, neoliberal e com m\u00eddia oligopolizada?<\/strong><\/p>\n<p>Nas sociedades capitalistas em que vivemos e que, ali\u00e1s, al\u00e9m de serem capitalistas, s\u00e3o colonialistas e patriarcais, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel democracia plena porque ela s\u00f3 opera (e mesmo assim com muitos limites) ao n\u00edvel do sistema pol\u00edtico, enquanto as rela\u00e7\u00f5es sociais diretamente decorrentes dos tr\u00eas modos de domina\u00e7\u00e3o (capitalismo, colonialismo e patriarcado. Ou seja, as rela\u00e7\u00f5es patr\u00e3o\/trabalhador, branco\/negro ou ind\u00edgena, homem\/mulher) s\u00f3 muito marginalmente podem ser democratizadas a partir do atual sistema pol\u00edtico. Ali\u00e1s, torna-se virtualmente imposs\u00edvel quando o sistema pol\u00edtico \u00e9, ele pr\u00f3prio, dominado por patr\u00f5es, por homens e por brancos. Ao deixar um vasto campo de rela\u00e7\u00f5es sociais por democratizar, a democracia \u00e9 sempre de baixa intensidade. Mas obviamente h\u00e1 graus de intensidade e os graus contam muito na vida das pessoas. A democracia brasileira tinha mais intensidade antes do golpe parlamentar-midi\u00e1tico-judicial do que tem agora. A simples composi\u00e7\u00e3o do governo mostra como a democracia \u00e9 agora mais capitalista, colonialista e patriarcal.<\/p>\n<p><strong>O que seria a democracia do futuro? Em que ela precisa romper com a democracia que temos hoje?<\/strong><\/p>\n<p>A democracia que temos n\u00e3o tem futuro, porque as for\u00e7as sociais e econ\u00f4micas que atualmente a dominam e a manipulam est\u00e3o possu\u00eddas de uma tal voracidade de poder que as impede de aceitar os resultados incertos do jogo democr\u00e1tico sempre que estes n\u00e3o lhes conv\u00eam. A manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e a fraude eleitoral (constitutiva no caso dos Estados Unidos) v\u00e3o acabar por retirar qualquer vest\u00edgio de credibilidade \u00e0 democracia. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a luta pelo ideal democr\u00e1tico vai implicar no futuro pr\u00f3ximo uma ruptura do mesmo calibre das revolu\u00e7\u00f5es da primeira metade do s\u00e9culo 20. Esperemos que menos violenta. Ser\u00e1 uma democracia de tipo novo que procurar\u00e1 garantir o m\u00e1ximo de autonomia do sistema pol\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o aos tr\u00eas modos de domina\u00e7\u00e3o acima referidos \u2013 para o que ser\u00e1 necess\u00e1ria uma Assembleia Constituinte origin\u00e1ria \u2013 para a partir desse sistema pol\u00edtico: a) pressionar at\u00e9 o limite a domina\u00e7\u00e3o capitalista em nome da igualdade socioecon\u00f4mica por via da redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza, dos direitos laborais, do acesso \u00e0 terra, da tributa\u00e7\u00e3o progressiva, do reconhecimento de outras formas de propriedade para al\u00e9m da privada; e b) pressionar at\u00e9 ao limite a domina\u00e7\u00e3o colonialista e patriarcal em nome do reconhecimento da igual dignidade das diferen\u00e7as raciais, etnoculturais e de g\u00eanero. Ao contr\u00e1rio do que aconteceu at\u00e9 agora, as duas press\u00f5es s\u00e3o igualmente importantes e t\u00eam de ser simult\u00e2neas. Na medida em que tiverem \u00eaxito, as duas press\u00f5es ir\u00e3o deixando emergir uma outra matriz social e pol\u00edtica que muitos chamar\u00e3o socialismo, se por socialismo entendermos democracia sem fim.<\/p>\n<p><strong>E como isso seria poss\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>O sistema pol\u00edtico ter\u00e1 de combinar democracia representativa e participativa, o pluralismo econ\u00f4mico ser\u00e1 o outro lado do pluralismo pol\u00edtico, a ecologia ser\u00e1 a medida do crescimento econ\u00f4mico e n\u00e3o o contr\u00e1rio, como acontece agora, e a educa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a prioridade das prioridades, orientada para democratizar, desmercantilizar, descolonizar e despatriarcalizar as rela\u00e7\u00f5es sociais. As condi\u00e7\u00f5es para ruptura s\u00e3o imprevis\u00edveis e podem implicar muito sofrimento humano injusto. O importante \u00e9 ter ideias para as p\u00f4r em pr\u00e1tica quando o momento chegar e convic\u00e7\u00f5es para distinguir rupturas dos novos disfarces da continuidade. At\u00e9 agora, as ideias de ruptura est\u00e3o a vir da direita e n\u00e3o da esquerda, como bem ilustra a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump e o crescimento da extrema-direita na Europa. O sistema disfar\u00e7a-se de antissistema para aprofundar o seu dom\u00ednio e a sua capacidade de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>No livro\u00a0<em>A Dif\u00edcil Democracia<\/em>, o senhor observa que temos uma democracia de baixa intensidade e que \u201cvivemos em sociedades politicamente democr\u00e1ticas e socialmente fascistas\u201d. Que impactos isso causa no funcionamento da sociedade e por que chegamos nesse ponto?<\/strong><\/p>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es de fascismo social ocorrem sempre que pessoas ou grupos sociais est\u00e3o \u00e0 merc\u00ea das decis\u00f5es unilaterais daqueles que t\u00eam poder sobre eles. Exemplos de fascismo social: quando uma fam\u00edlia tem comida para dar aos filhos hoje, mas n\u00e3o sabe se a ter\u00e1 amanh\u00e3; quando um trabalhador desempregado se v\u00ea na conting\u00eancia de ter de aceitar as condi\u00e7\u00f5es ilegais que o patr\u00e3o lhe imp\u00f5e para poder sustentar a fam\u00edlia; quando uma mulher \u00e9 violada a caminho de casa ou \u00e9 assassinada em casa pelo companheiro; quando os povos ind\u00edgenas s\u00e3o expulsos das suas terras ou assassinados impunemente por capangas ao servi\u00e7o dos agronegociantes e latifundi\u00e1rios; quando os jovens negros s\u00e3o v\u00edtimas de racismo e de brutalidade policial nas periferias das cidades. Em todos estes casos, estou a referir situa\u00e7\u00f5es em que as v\u00edtimas s\u00e3o formalmente cidad\u00e3os mas n\u00e3o t\u00eam realisticamente qualquer possibilidade de invocar eficazmente direitos de cidadania a seu favor. A situa\u00e7\u00e3o agrava-se quando se trata de imigrantes, refugiados etc. Por exemplo, a situa\u00e7\u00e3o de trabalho escravo de milhares de imigrantes bolivianos nas f\u00e1bricas de S\u00e3o Paulo. As v\u00edtimas de fascismo social n\u00e3o s\u00e3o consideradas plenamente humanas por quem impunemente as pode agredir ou explorar.<\/p>\n<p>Mas o fascismo n\u00e3o tem apenas a face violenta. Tem tamb\u00e9m a face benevolente da filantropia. Na filantropia quem d\u00e1 n\u00e3o tem dever de dar e quem recebe n\u00e3o tem direito de receber. Em tempos recentes, a classe alta e m\u00e9dia alta do Brasil ressentiu muito que as empregadas dom\u00e9sticas ou os motoristas j\u00e1 n\u00e3o precisavam dos favores dos patr\u00f5es para comprar um computador aos filhos ou fazer um curso. Ressentiam o fato de os seus subordinados se terem libertado do fascismo social. Quanto mais vasto \u00e9 o n\u00famero dos que vivem em fascismo social, menor \u00e9 a intensidade da democracia.<\/p>\n<p><strong>O senhor classifica como esquerda um conjunto de teorias e pr\u00e1ticas que resistiram ao capitalismo e \u00e0 cren\u00e7a em um futuro p\u00f3s-capitalista, mais justo, centrado na satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades dos indiv\u00edduos e da liberdade. O quanto a esquerda de hoje se aproxima desse conceito?<\/strong><\/p>\n<p>Desde a queda do Muro de Berlim a esquerda mundial perdeu a mem\u00f3ria e a aspira\u00e7\u00e3o de uma sociedade p\u00f3s-capitalista. Na Am\u00e9rica Latina, os movimentos ind\u00edgenas vieram trazer para a agenda pol\u00edtica, sobretudo na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 21, uma alternativa vibrante ao socialismo, o\u00a0<em>buen vivir<\/em>\u00a0(<em>sumak kawsay<\/em>\u00a0em qu\u00edchua, \u201cbom viver\u201d) dos povos andinos como matriz de desenvolvimento n\u00e3o capitalista. Essa nova matriz foi consagrada nas Constitui\u00e7\u00f5es do Equador de 2008 e da Bol\u00edvia de 2009. Infelizmente, a pr\u00e1tica pol\u00edtica tem vindo a contradizer a Constitui\u00e7\u00e3o. No fundo, a esquerda latino-americana foi sempre muito euroc\u00eantrica e, por vezes, racista, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas e quilombolas. O problema da esquerda neste momento \u00e9 n\u00e3o ter uma resposta progressista para crise do neoliberalismo que se avizinha. A elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump e o crescimento da extrema-direita na Europa mostram que as for\u00e7as de direita est\u00e3o mais bem posicionadas para impor uma resposta reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Por que o senhor afirma em seu livro que Cuba se transformou em um problema para a esquerda?<\/strong><\/p>\n<p>Quando, na primeira d\u00e9cada do novo mil\u00eanio, se come\u00e7ou a discutir no continente o socialismo do s\u00e9culo 21, algo in\u00e9dito em n\u00edvel mundial, muitas vozes (a minha inclu\u00edda) advertiram que tal discuss\u00e3o s\u00f3 faria sentido se primeiro discut\u00edssemos os erros do socialismo do s\u00e9culo 20. Acontece que Cuba era um dos socialismos do s\u00e9culo 20 e haveria de inclu\u00ed-lo na cr\u00edtica. Muitos companheiros acharam que tal cr\u00edtica acabaria por vulnerabilizar ainda mais a corajosa luta do povo cubano ante a agress\u00e3o do imperialismo norte-americano e o infame embargo. O cap\u00edtulo do livro a que se refere foi escrito a partir de uma perspectiva socialista e solid\u00e1ria para com a luta do povo cubano. O texto foi muito bem recebido em Cuba por intelectuais que muito respeitamos, mas a publica\u00e7\u00e3o foi embargada por ordens superiores. Como vai a esquerda reagir se Cuba caminhar para uma solu\u00e7\u00e3o de capitalismo de Estado \u00e0 la chinesa ou \u00e0 la vietnamita? Mas mais problem\u00e1tico ainda \u00e9 como a esquerda reagir\u00e1 a algo que tem vindo a querer desconhecer: como reagir ao fato de em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa Oriental as sondagens de opini\u00e3o revelarem repetidamente que a maioria da popula\u00e7\u00e3o destes pa\u00edses considera que vivia melhor no tempo do socialismo de Estado?<\/p>\n<p><strong>O Brasil da era Lula \u00e9 citado como nova pot\u00eancia \u201cben\u00e9vola e inclusiva\u201d. Quais foram os limites desse modelo? Como o Brasil pode ser classificado agora?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil de Lula foi o produto de uma conjuntura que dificilmente se repetir\u00e1 nos pr\u00f3ximos tempos. Tratou-se da alta dos pre\u00e7os dos recursos naturais e agr\u00edcolas impulsionada pelo desenvolvimento da China (e tamb\u00e9m por especula\u00e7\u00e3o). Permitiu que se realizasse uma not\u00e1vel diminui\u00e7\u00e3o da pobreza sem que os ricos deixassem de enriquecer, sem que o sistema pol\u00edtico e a pr\u00e1tica pol\u00edtica fossem democratizados, sem que se fizesse reforma tribut\u00e1ria, do sistema financeiro e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. E sem que se pusesse em causa, e antes se aprofundasse, um modelo de crescimento assentado na desindustrializa\u00e7\u00e3o, na destrui\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio ecol\u00f3gico do pa\u00eds e na imposi\u00e7\u00e3o de sofrimento injusto e ilegal (\u00e0 luz do direito interno e internacional) aos povos ind\u00edgenas, aos camponeses e \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas. Todas estas omiss\u00f5es foram os limites do modelo do per\u00edodo Lula, um modelo t\u00e3o brilhante nos \u00eaxitos do curto prazo, como leviano no descuidar das suas condi\u00e7\u00f5es de sustentabilidade. O Brasil de agora \u00e9 politicamente uma sociedade mais capitalista, mais colonialista e mais patriarcal do que era antes do golpe, e por isso menos democr\u00e1tica e com mais fascismo social.<\/p>\n<p><strong>Se o futuro da esquerda n\u00e3o ser\u00e1 uma continua\u00e7\u00e3o linear do seu passado, como ser\u00e1 esse futuro?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos num per\u00edodo de bifurca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uma conjuntura altamente inst\u00e1vel que pode caminhar em uma de duas dire\u00e7\u00f5es opostas: ou o fascismo social se expande e se transforma em fascismo pol\u00edtico; ou as for\u00e7as democr\u00e1ticas prevalecem antecipando-se \u00e0s for\u00e7as de direita que se posicionam para \u201cresolver\u201d a crise do neoliberalismo que se avizinha \u2013 uma crise que elas pr\u00f3prias criaram com a colabora\u00e7\u00e3o ativa de alguma esquerda rendida \u00e0 \u201cevid\u00eancia\u201d do pensamento \u00fanico. A esquerda s\u00f3 tem futuro no segundo caso, e para isso tem de se refundar numa dupla cren\u00e7a: os grandes empres\u00e1rios, os banqueiros e a m\u00eddia corporativa a servi\u00e7o dele nunca aceitar\u00e3o a \u201cpaz e amor\u201d com as for\u00e7as de esquerda. Quem governa \u00e0 direita tem n\u00e3o s\u00f3 o controle do governo, como tamb\u00e9m o do poder social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico no seu sentido mais amplo. Quem governa \u00e0 esquerda s\u00f3 tem o controle do governo e o tem de usar para neutralizar os outros poderes f\u00e1ticos. Perante essa assimetria, governar \u00e0 esquerda \u00e9 sempre governar contra a corrente, com toler\u00e2ncia zero com a corrup\u00e7\u00e3o e dando prioridade \u00e0 reforma do sistema pol\u00edtico de modo a autonomiz\u00e1-lo o mais poss\u00edvel em rela\u00e7\u00e3o aos poderes que reproduzem a domina\u00e7\u00e3o capitalista, colonialista e patriarcal. Os lideres adequados a essa esquerda ter\u00e3o de ser muito diferentes dos atuais, centrados em ampliar e manter aut\u00f4nomas e ativas as organiza\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os e cidad\u00e3s segundo mecanismos de democracia participativa. O poder pol\u00edtico das for\u00e7as de esquerda ser\u00e1 tanto maior quanto mais amplamente for partilhado por quem n\u00e3o se considera \u201cpol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 tamb\u00e9m um refluxo do neoliberalismo em toda a Am\u00e9rica Latina. Como a esquerda reagir\u00e1 a esse contexto?<\/strong><\/p>\n<p>A esquerda latino-americana perdeu uma grande oportunidade hist\u00f3rica. Na primeira d\u00e9cada do novo mil\u00eanio o neoliberalismo estava na defensiva no continente devido \u00e0 guerra no Iraque. Os governos de esquerda fizeram sonoras declara\u00e7\u00f5es contra o neoliberalismo e o imperialismo, mas n\u00e3o se envolveram com entusiasmo (sobretudo os pa\u00edses maiores como o Brasil) na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas regionais que blindassem o continente depois da exaltante vit\u00f3ria da luta continental contra a \u00adAlca e tornassem a solidariedade regional numa pr\u00e1tica consistente. Organiza\u00e7\u00f5es como a Alba, Unasur, Banco do Sul foram sendo negligenciadas, tal como o pr\u00f3prio Mercosul.<\/p>\n<p><strong>Os erros da esquerda explicam a retomada neoliberal?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, o neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina tem dois nomes: o imperialismo norte-americano e o imperialismo da Uni\u00e3o Europeia. A esquerda latino-americana est\u00e1 despreparada para combater eficazmente esse perigo para as for\u00e7as progressistas. Desde que a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o foi praticamente banida por papas reacion\u00e1rios, a esquerda deixou de saber onde moram os desgra\u00e7ados, condenados, exclu\u00eddos, silenciados, ressentidos do continente. E se soubesse onde moram, n\u00e3o saberia como falar com eles. Parafraseando um grande marxista deste continente, Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui (<em>pensador peruano<\/em>), o pecado capital da esquerda latino-americana \u00e9 ter-se esquecido dos desgra\u00e7ados e desgra\u00e7adas do continente, levada pela miragem da conquista de supostas classes m\u00e9dias que no continente sempre estiveram ao lado das oligarquias.<\/p>\n<p><strong>Quais podem ser os impactos de uma medida que limita gastos p\u00fablicos por 20 anos para a democracia brasileira e para a sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>Devastador. Anuncia um brutal aumento do fascismo social e o consequente definhamento da democracia. Trata-se de uma medida provocat\u00f3ria destinada a mostrar \u00e0s classes populares que n\u00e3o poder\u00e3o mais acreditar nas promessas da esquerda e que o pouco que poder\u00e3o esperar do Estado \u00e9 o que lhes for dado pela direita. Espero que os brasileiros e as brasileiras tornem o pa\u00eds ingovern\u00e1vel aos poderes que os querem governar com tais medidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA democracia brasileira tinha mais intensidade antes do golpe parlamentar-midi\u00e1tico-judicial do que tem agora. 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