{"id":676,"date":"2014-11-25T11:27:35","date_gmt":"2014-11-25T11:27:35","guid":{"rendered":"http:\/\/sindvalores.com.br\/site\/?p=676"},"modified":"2014-11-25T11:27:35","modified_gmt":"2014-11-25T11:27:35","slug":"como-armas-e-municoes-chegam-as-maos-de-bandidos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindvalores.com.br\/site\/institucional\/noticias\/como-armas-e-municoes-chegam-as-maos-de-bandidos-brasileiros","title":{"rendered":"Como armas e muni\u00e7\u00f5es chegam \u00e0s m\u00e3os de bandidos brasileiros"},"content":{"rendered":"<p>BBC News &#8211; O Portal de Not\u00edcias do Centro-Oeste\u00a0\u00a0&#8211; \u00daLTIMAS NOT\u00cdCIAS &#8211;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 26 de novembro passado, uma sexta-feira, um tiro de fuzil calibre 7.62 varou as costas, rasgou os intestinos, perfurou o p\u00e2ncreas e atravessou o abd\u00f4men de Rog\u00e9rio Cavalcante, 34, no Complexo da Mar\u00e9, no Rio de Janeiro. O rombo provocado pela sa\u00edda da bala n\u00e3o p\u00f4de ser costurado pelos m\u00e9dicos, por falta de pele. Seis meses antes, no shopping Cidade Jardim, em S\u00e3o Paulo, assaltantes invadiram a joalheria Tiffany &amp; Co e levaram 1,5 milh\u00e3o de reais em j\u00f3ias com a ajuda de pistolas 9 mil\u00edmetros, escopetas calibre 12 e submetralhadoras. H\u00e1 32 dias, modelos id\u00eanticos foram utilizados por dez homens encapuzados para invadir a \u00fanica ag\u00eancia do Banco do Brasil em Boninal, cidade de 13 mil habitantes a 513 quil\u00f4metros de Salvador, na Bahia. Os crimes aconteceram em hor\u00e1rios diferentes, locais diferentes e de maneira diferente. Mas t\u00eam uma coisa em comum: as armas, todas elas comercializadas no mercado negro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Finalizada em novembro de 2006, a Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito que investigou o tr\u00e1fico de armamentos em todo o territ\u00f3rio nacional baseada em dados fornecidos pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e pela Pol\u00edcia Federal concluiu que 66% do material b\u00e9lico contrabandeado para o Brasil vem do Paraguai. \u201cO principal corredor de armas \u00e9 o Paraguai, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas\u201d, diz o deputado Paulo Pimenta, do PT do Rio Grande do Sul, que foi relator da CPI. De cada 100 armas em posse de criminosos brasileiros, 29 foram roubadas dentro do pa\u00eds (a maioria de funcion\u00e1rios de empresas de seguran\u00e7a) e 71 chegaram por contrabando, informa uma pesquisa da RCI First Security and Intelligente Advising, empresa de Seguran\u00e7a Privada sediada em Nova York, especializada em an\u00e1lise e gest\u00e3o de risco, respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o da maioria dos 120 bunkers que existem hoje no Brasil. Dessas, 5% desembarcam por mar, vindas de outros continentes, 8% v\u00eam da Bol\u00edvia, 17% do Suriname e a maioria absoluta, 68%, do Paraguai. Com 6,3 milh\u00f5es de habitantes, o pa\u00eds, que em 1870 perdeu a guerra para a alian\u00e7a formada entre Brasil, Uruguai e Argentina, agora importa uma quantidade de armas suficiente para equipar todos os integrantes da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem violar qualquer lei, 19 empresas paraguaias importam pistolas Glock da \u00c1ustria, fuzis AK-47 da R\u00fassia, AR-15 dos Estados Unidos e metralhadoras gen\u00e9ricas da China \u2013 que t\u00eam coronha de pl\u00e1stico e com frequ\u00eancia apresentam defeitos funcionais que aborrecem os traficantes cariocas. De cada 100 armas que o Paraguai compra, 81 s\u00e3o importadas legalmente, revela a pesquisa. Devidamente embalado e registrado em notas fiscais, esse armamento chega em cont\u00eaineres pelo porto de Paranagu\u00e1, no Paran\u00e1, conhecido por especialistas em seguran\u00e7a como o \u201cporto do Paraguai\u201d. Dali, o carregamento segue por estradas federais brasileiras at\u00e9 o Paraguai e \u00e9 entregue \u00e0s importadoras. O engenheiro Ricardo Chilelli, especialista em Seguran\u00e7a Internacional e diretor-presidente da RCI First, revela que, assim como os chineses monopolizam o contrabando de produtos piratas, os russos controlam o contrabando de armas no continente. \u201cIsso faz com que as estat\u00edsticas de exporta\u00e7\u00e3o se invertam\u201d, conta. S\u00f3 17% das exporta\u00e7\u00f5es de armas feitas pelo Paraguai acontecem dentro da lei. A imensa maioria, 83%, \u00e9 fruto do contrabando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a m\u00e1fia russa n\u00e3o comanda tudo sozinha, alerta o jurista Walter Maierovitch, ex-secret\u00e1rio Nacional Antidrogas no governo Fernando Henrique Cardoso. Especialista em criminalidade transnacional, Maierovitch informa que \u201cas m\u00e1fias russa, italiana, turca, e at\u00e9 fac\u00e7\u00f5es brasileiras atuam em conjunto no tr\u00e1fico de drogas e armas na Am\u00e9rica do Sul\u201d. Embora criminosos estrangeiros dominem o vaiv\u00e9m de material b\u00e9lico no continente, quem se arrisca nas travessias para o lado brasileiro nada t\u00eam de europeu. Nessa etapa, existem dois tipos de contrabandistas: aqueles que s\u00e3o encarregados apenas de cruzar a fronteira e os que, al\u00e9m disso, levam o carregamento at\u00e9 as principais capitais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na fronteira da paranaense Foz do Igua\u00e7u com a paraguaia Ciudad Del Este, por exemplo, esses traficantes s\u00e3o brasileiros que costumam caminhar normalmente pelas ruas, vestem roupas amarfanhadas, usam \u00f3culos de grau e falam o tempo todo sobre os m\u00edseros 800 reais que ganhariam, em m\u00e9dia, caso optassem por empregos regulares. Para garantir o sal\u00e1rio maior, entram no Paraguai em busca de armas, mant\u00eam fornecedores fixos e especializam-se no transporte dos produtos para o lado brasileiro. \u201cArmas e drogas atravessam o Rio Paran\u00e1 em canoas a remo e, na parte alta, em lanchas motorizadas\u201d, informa o promotor Rude Burkle, coordenador do Grupo de Atua\u00e7\u00e3o Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Foz do Igua\u00e7u. Em solo brasileiro, outros contrabandistas cuidam da entrega das encomendas que, na maior parte das vezes, t\u00eam como destino S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo chega por terra. Ricardo Schneider, inspetor da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (PRF) em Foz do Igua\u00e7u, conta que, antes de alcan\u00e7ar a capital, os contrabandistas desmontam as armas e enfiam as pe\u00e7as em bexigas de borracha (daquelas que enfeitam festas de crian\u00e7a) depois de besunt\u00e1-las com p\u00f3 de caf\u00e9 e graxa \u2013 truques utilizados para despistar os focinhos dos pastores alem\u00e3es da PRF e os policiais de faro apurado. Tamb\u00e9m camuflam as armas em caminh\u00f5es de abacaxi (por causa do cheiro forte), em carregamentos de carv\u00e3o (que s\u00e3o enormes e dificultam a revista) e em cargas de peixe: se as portas do freezer ambulante forem abertas, os peixes correm o risco de apodrecer. Caso n\u00e3o encontrem vest\u00edgios de armas ou drogas, os policiais podem ter de pagar indeniza\u00e7\u00f5es ao peixeiro ou multa se contaminarem o carregamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEm autom\u00f3veis, os esconderijos variam bastante\u201d, adverte Schneider. \u201cNo Uno Mille, por exemplo, \u00e9 comum esconder armas num fundo falso no porta-malas\u201d. Em carros de outras marcas, enfiam as pe\u00e7as no tanque de gasolina para disfar\u00e7ar o cheiro. Frequentemente serram a lataria, ocultam os armamentos, soldam o ferro e refazem a pintura \u2013 como fizeram h\u00e1 alguns meses dois paraguaios em um Mercedes Classe A na BR-277, presos perto de Cascavel, no Paran\u00e1. A dupla dizia que estava no Brasil para jogar golfe. Foram flagrados com um rifle Barret ponto 50, pr\u00f3prio para atravessar blindagens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Olheiros a servi\u00e7o de traficantes passam o dia monitorando postos policiais instalados nas estradas que ligam S\u00e3o Paulo ao Paraguai. \u201cComo os policiais rodovi\u00e1rios andam todos fardados, \u00e9 f\u00e1cil identificar quantos t\u00eam no posto e quantos est\u00e3o na rua\u201d, adverte Schneider. Os criminosos localizam as viaturas e informam os comparsas por celular. Tamb\u00e9m telefonam para os postos para comunicar falsos acidentes. \u201c\u00c9 preciso acabar com a porosidade na fronteira\u201d, diz Schneider. A porosidade \u00e9 ainda maior em Mato Grosso do Sul. \u201cS\u00f3 dois homens da pol\u00edcia militar circulam no lado brasileiro da fronteira de Coronel Sapucaia com Capit\u00e1n Bado\u201d, conta Ricardo Rotunno, promotor de Justi\u00e7a de Amambai e ex-coordenador do Gaeco em Mato Grosso do Sul. \u201cL\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 delegados, agentes da Pol\u00edcia Federal nem da Receita Federal\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algumas vezes, traficantes e contrabandistas denunciam suas pr\u00f3prias cargas em tr\u00e2nsito nas estradas brasileiras, conta Ricardo Chilelli. S\u00e3o carregamentos com drogas misturadas com produtos qu\u00edmicos e armas de pouca relev\u00e2ncia para os bandidos. \u201cEles desviam a aten\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia\u201d, diz o especialista. \u201cEnquanto apreendem uma tonelada de maconha, por exemplo, um carregamento de 200 toneladas passa despercebido\u201d. Aparentemente exagerados, os n\u00fameros s\u00e3o endossados pelo volume de armamentos apreendidos nos \u00faltimos anos pela PRF. Entre 2003 e 2010, 11.035 armas e 768.929 muni\u00e7\u00f5es foram capturadas. Durante os primeiros 12 dias de ocupa\u00e7\u00e3o da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alem\u00e3o, em novembro de 2010, no Rio de Janeiro, 518 armas foram apreendidas \u2013 entre elas 140 fuzis. O relat\u00f3rio de conclus\u00e3o da CPI que investigou o tr\u00e1fico de material b\u00e9lico no Brasil informa que h\u00e1 17 milh\u00f5es de armas de fogo em circula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds \u2500 4 milh\u00f5es em poder de criminosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As rotas do contrabando de armas s\u00e3o id\u00eanticas \u00e0s do tr\u00e1fico de drogas. \u201cAs propinas pagas por criminosos a policiais fazem com que os caminhos e os personagens sejam os mesmos\u201d, diz Chilelli. A corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica permite que um fuzil AK-47 seja alugado em S\u00e3o Paulo por di\u00e1rias que variam de 500 a 800 reais. Na capital paulista, cinco quadrilhas fornecem o servi\u00e7o de aluguel das chamadas \u201carmas longas\u201d. Um Fuzil Autom\u00e1tico Leve (FAL) calibre 7.62 pode ser comprado por cerca de 45.000 reais \u2013 tr\u00eas vezes o pre\u00e7o negociado na fronteira com o Paraguai e com outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul (como mostra o Infogr\u00e1fico).\u00a0No Rio de Janeiro, o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, presidir\u00e1 a CPI que, aberta em 14 de mar\u00e7o, vai tentar descobrir como armas e muni\u00e7\u00f5es chegam \u00e0s m\u00e3os dos traficantes cariocas. Segundo Freixo, as investiga\u00e7\u00f5es n\u00e3o devem se restringir aos problemas na fronteira com pa\u00edses vizinhos. \u201cH\u00e1 ind\u00edcios de corrup\u00e7\u00e3o nas pol\u00edcias e falta sincronia entre o Ex\u00e9rcito e as for\u00e7as locais\u201d, observa o deputado. Daqui a cinco meses a CPI deve ser conclu\u00edda. E uma s\u00e9rie de propostas ser\u00e1 feita \u00e0s autoridades. Em 2006, a CPI do Tr\u00e1fico de Armas resultou \u201cnum conjunto de recomenda\u00e7\u00f5es ao Poder Executivo e de projetos de lei\u201d, diz o deputado e ex-relator Paulo Pimenta. \u201cTodos os projetos est\u00e3o em tramita\u00e7\u00e3o\u201d. Concretamente, o pacote de propostas foi respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o de uma delegacia especializada em tr\u00e1fico de armas e muni\u00e7\u00f5es na Pol\u00edcia Federal e pelo Projeto Especializado em Policiamento de Fronteira, o chamado Pefron \u2013 um tipo de policiamento espec\u00edfico que at\u00e9 agora existe em 11 cidades. \u00c9 pouco se levarmos em considera\u00e7\u00e3o a dimens\u00e3o do contrabando de armas que, nas m\u00e3os de criminosos, matam, causam sequelas irrevers\u00edveis e agridem a popula\u00e7\u00e3o com preju\u00edzos incont\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BBC News &#8211; O Portal de Not\u00edcias do Centro-Oeste\u00a0\u00a0&#8211; \u00daLTIMAS NOT\u00cdCIAS &#8211; &nbsp; Em 26 de novembro passado, uma sexta-feira, um tiro de fuzil calibre 7.62 varou as costas, rasgou os intestinos, perfurou o p\u00e2ncreas e atravessou o abd\u00f4men de Rog\u00e9rio Cavalcante, 34, no Complexo da Mar\u00e9, no Rio de Janeiro. 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