{"id":8603,"date":"2015-03-02T14:59:35","date_gmt":"2015-03-02T14:59:35","guid":{"rendered":"http:\/\/sindvalores.com.br\/site\/?p=8603"},"modified":"2015-03-02T14:59:35","modified_gmt":"2015-03-02T14:59:35","slug":"e-meu-dever-dizer-aos-jovens-o-que-e-um-golpe-de-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sindvalores.com.br\/site\/institucional\/noticias\/e-meu-dever-dizer-aos-jovens-o-que-e-um-golpe-de-estado","title":{"rendered":"\u00bb \u00c9 meu dever dizer aos jovens o que \u00e9 um Golpe de Estado"},"content":{"rendered":"<p><strong>H\u00e1 cheiro de 1964 no ar. N\u00e3o apenas no Brasil, mas tamb\u00e9m nas vizinhan\u00e7as. Acho ent\u00e3o que \u00e9 chegada a hora de dar o meu depoimento.\u00a0Dizer a voc\u00eas, jovens de 20, 30, 40 anos de meu Brasil, o que \u00e9 de fato uma ditadura.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Por\u00a0Hildegard Angel*, em seu blog<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se a Ditadura Militar tivesse sido contada na escola, como s\u00e3o a Inconfid\u00eancia Mineira e outros epis\u00f3dios pontuais de usurpa\u00e7\u00e3o da liberdade em nosso pa\u00eds, eu n\u00e3o estaria me vendo hoje obrigada a passar sal em minhas t\u00e3o raladas feridas, que jamais pararam de sangrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fazer as feridas sangrarem \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o de cada um dos que sofreram naquele per\u00edodo e ainda t\u00eam voz para falar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns j\u00e1 se calaram para sempre. Outros, agora se calam por vontade pr\u00f3pria. Terceiros, por cansa\u00e7o. Muitos, por des\u00e2nimo. O cora\u00e7\u00e3o tem raz\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu falo e eu choro e eu me sinto um baga\u00e7o. Talvez porque a minha consci\u00eancia do sofrimento tenha pegado meio no tranco, como se eu vivesse durante um certo tempo assim catat\u00f4nica, sem prestar aten\u00e7\u00e3o, caminhando como cabra cega num cen\u00e1rio de terror e desola\u00e7\u00e3o, apalpando o ar, me guiando pela brisa. E quando, finalmente, caiu-me a venda, s\u00f3 vi o vazio de minha pr\u00f3pria cegueira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Meu irm\u00e3o, meu irm\u00e3o, onde est\u00e1s? Sequer o corpo jamais tivemos.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nOutro dia, jantei com um casal de leais companheiros dele. Bronzeados, risonhos, felizes. Quando falei do sofrimento que pass\u00e1vamos em casa, na expectativa de saber se Tuti estaria morto ou vivo, se havia corpo ou n\u00e3o, ouvi: \u201cAh, mas se soubessem como \u00e9ramos felizes\u2026 Dorm\u00edamos de m\u00e3os dadas e com o rev\u00f3lver ao lado, e \u00e9ramos completamente felizes\u201d. E se olharam, um ao outro, completamente felizes.<br \/>\nAh, meu deus, e como n\u00f3s, as fam\u00edlias dos que morreram, \u00e9ramos e somos completamente infelizes!<\/p>\n<p>A ditadura militar aboletou-se no Brasil, assentada sobre um colch\u00e3o de mentiras ardilosamente costuradas para iludir a boa f\u00e9 de uma classe m\u00e9dia desinformada, aterrorizada por perversa lavagem cerebral da m\u00eddia, que antevia uma \u201cinvas\u00e3o vermelha\u201d, quando o que, de fato, hoje se sabe, navegava c\u00e9lere em nossa dire\u00e7\u00e3o, era uma frota americana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Deu-se o golpe! Os jovens universit\u00e1rios liberais e de esquerda n\u00e3o precisavam de motiva\u00e7\u00e3o mais convincente para reagir. Como armas, tinham sua ideologia, os argumentos, os livros. Foram afugentados do mundo acad\u00eamico, proibidos de estudar, de frequentar as escolas, o saber entrou para o \u00edndex nacional engendrado pela prepot\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As pessoas tinham as casas invadidas, gavetas reviradas, pap\u00e9is e livros confiscados. Pessoas eram levadas na calada da noite ou sob o sol brilhante, aos olhos da vizinhan\u00e7a, sem explica\u00e7\u00f5es nem motivo, bastava uma den\u00fancia, sabe-se l\u00e1 por que raz\u00e3o ou partindo de quem, muitas para nunca mais serem vistas ou sabidas. Ou mesmo eram mortas \u00e0 luz do dia. Ra-ta-ta-ta-t\u00e1 e pronto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E todos se calavam. A grande escurid\u00e3o do Brasil. Assim s\u00e3o as ditaduras. Hoje ouvimos falar dos horrores praticados na Coreia do Norte. Aqui n\u00e3o foi muito diferente. O medo era igual. O obscurantismo igual. As torturas iguais. A hipocrisia id\u00eantica. A aceita\u00e7\u00e3o da sobreviv\u00eancia. Ame-me ou deixe-me. O dedurismo. Tudo igual. Em n\u00famero menor de indiv\u00edduos massacrados, mas a mesma consist\u00eancia de terror, a mesma impot\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Falam na corrup\u00e7\u00e3o dos dias de hoje. Esquecem-se de falar nas de ontem. Quando cochichavam sobre \u201cas malas do Golbery\u201d ou \u201cas comiss\u00f5es das turbinas\u201d, \u201cas compras de armamento\u201d. Falavam, falavam, mas nada se apurava, nada se publicava, nada se confirmava, pois n\u00e3o havia CPI, n\u00e3o havia um Congresso de verdade, uma imprensa de verdade, uma Justi\u00e7a de verdade, um pa\u00eds de verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E qualquer empresa, grande, m\u00e9dia ou m\u00ednima, para conseguir se manter, precisava obrigatoriamente ter na diretoria um militar. De qualquer patente. Para impor respeito, abrir portas, estar imune a persegui\u00e7\u00f5es. Se isso n\u00e3o \u00e9 um tipo de aparelhamento, o que \u00e9, ent\u00e3o? Um Brasil de mentirinha, ao som da trilha sonora ufanista de Miguel Gustavo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia se dilacerou. Meu irm\u00e3o torturado, morto, corpo n\u00e3o sabido. Minha m\u00e3e assassinada, numa pantomima de acidente, s\u00f3 desmascarada 22 anos depois, pelo empenho do ministro Jos\u00e9 Gregory, com a instala\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o dos Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos no governo Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>Meu pai, quatro infartos e a decep\u00e7\u00e3o de saber que ele, estrangeiro, que dedicou vida, esfor\u00e7o e economias a manter um orfanato em Minas, criando 50 meninos brasileiros e lhes dando of\u00edcio, via o Brasil roubar-lhe o primog\u00eanito, Stuart Edgar, somando no nome homenagens aos seus pai e irm\u00e3o, ambos pastores protestantes americanos \u2013 o irm\u00e3o, assassinado por membro louco da Ku Klux Klan. Trag\u00e9dia que se repetia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3, enviada repentinamente para estudar nos Estados Unidos, quando minha m\u00e3e teve a informa\u00e7\u00e3o de que sua sala de aula, no curso de Ci\u00eancias Sociais, na PUC, seria invadida pelos militares, e foi, e os alunos seriam presos, e foram. At\u00e9 hoje, ela vive no exterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Barata tonta, fiquei por a\u00ed, vagando feito mariposa, em volta da fosforesc\u00eancia da luz magn\u00edfica de minha profiss\u00e3o de colunista social, que s\u00f3 me somou aplausos e muitos queridos amigos, mas tamb\u00e9m uma insolente incompreens\u00e3o de quem se arbitrou o insano direito de me julgar por ter sobrevivido.<\/p>\n<p>Outra morte dolorida foi a da atriz, minha verdadeira e apaixonada voca\u00e7\u00e3o, que, logo ap\u00f3s o assassinato de minha m\u00e3e, precisei abdicar de ser, apesar de me ter preparado desde a inf\u00e2ncia para tal e j\u00e1 ter ent\u00e3o alcan\u00e7ado o espa\u00e7o pr\u00f3prio. Intuitivamente, sabia que prosseguir significaria uma contagem regressiva para meu pr\u00f3prio fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje, vivo catando os retalhos daquele passado, como acumuladora, sem espa\u00e7o para tantos pap\u00e9is, vestidos, rabiscos, mem\u00f3rias, tentando me entender, encontrar, reencontrar e viver apesar de tudo, e promover nessa planta\u00e7\u00e3o tosca de sofrimentos uma bela colheita: lembrar os meus m\u00e1rtires e tudo de bom e de belo que fizeram pelo meu pa\u00eds, quer na moda, na arte, na pol\u00edtica, nos exemplos deixados, na Hist\u00f3ria, atrav\u00e9s do maior n\u00famero de a\u00e7\u00f5es produtivas, efetivas e criativas que eu consiga multiplicar.<\/p>\n<p>E ainda h\u00e1 quem me pergunte em qu\u00ea a Ditadura Militar modificou minha vida!<\/p>\n<p><em>*Hildegard Angel \u00e9 jornalista e blogueira<br \/>\n<\/em><br \/>\n<em>**O primeiro par\u00e1grafo original deste texto, que fazia refer\u00eancia \u00e0 poss\u00edvel iminente tomada do poder de um governo eleito democraticamente, na Venezuela, foi trocado pela frase sucinta aqui vista agora, \u00e0s 15h06m deste dia 24\/02\/2014, porque o foco principal do assunto (a ditadura brasileira) foi desviado nos coment\u00e1rios. Meus ombros j\u00e1 s\u00e3o pequenos para arcarem com a nossa trag\u00e9dia. Que dir\u00e1 com a da Venezuela!<\/em><\/p>\n<p>*** Pelo mesmo motivo acima exposto, os coment\u00e1rios que se referiam \u00e0 quest\u00e3o na Venezuela referida no antigo primeiro par\u00e1grafo foram retirados pois perderam o sentido no contexto. Pedindo desculpa aos autores dos textos, muitos deles objeto de reflex\u00e3o honesta e profunda, e merecedores de serem conhecidos, mas n\u00e3o h\u00e1 motiva\u00e7\u00e3o para mant\u00ea-los aqui no ar. O n\u00edvel de trucul\u00eancia a que levou a discuss\u00e3o n\u00e3o me permite estimul\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cheiro de 1964 no ar. N\u00e3o apenas no Brasil, mas tamb\u00e9m nas vizinhan\u00e7as. 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